24 de abril de 2017

Um avulso de volta

DESFAÇA, DESPRENDA, DESQUEIRA

para M. B.


Desfaça, desprenda, desqueira,
mesmo que isso não o ponha a salvo
dos enganos esmerados
sem linha de alvo ou de obstáculo.

Estire sua ideia até nublar o ângulo –
tão mais agudo, tão mais obtuso –
na pulsante aspereza dos disfarces
que não são, por fim, armas de logro,
antes hesitações de pêndulo.

Não são lesa-você nem lesa-gentes,
são estojos e forros
do mobiliário dos náufragos,
dos desconfiados,
dos contidos por força desconhecida
que experimentam um excedente de expectativa.


Jean Cristtus Portela

Abril de 2017

14 de junho de 2013

Um avulso de Tal a fuga (2003-2006)



LINHAS IMPIEDOSAS REGERAM

Linhas impiedosas regeram sua
Penúltima mensagem: "Deixe-me, homem de
Afeição recessiva, altruísta oportunista
Adeus, amigo, nada restou daquele afeto límpido".

O que atiça minha máquina de juras
E meu detector de degredos.

Nem deliberada ausência ou
Presença filtrada borrará seu desenho
Nem biombos espessos reterão seu corpo -
Nem a linha mais cruel causa-me incômodo.

Ah, meu predador estrutural,
Fantasma predestinado, sempre recorde:
Nunca ninguém é tanto algo.

J. C. P

1 de junho de 2013

Da série "Poemas do gabinete" [2]



FÔLEGO PARA O MOVIMENTO

Antes do início da banca de ontem,
tive que buscar meus óculos no carro.
Cena trivial de que a ruína
Sempre foi a ausência
do natural, do sensual,
fôlego para o movimento.

Fôlego para o movimento –
medida de usura
dos corpos. É o que transmuda
a caixa de ossos na arrogância
dos gestos mais eróticos: tônus, tórax,
suor, transporte, torpor.


Araraquara, maio de 2013.

J. C. P.

29 de maio de 2013

Da série "Poemas do gabinete" [1]




FAUNO DE ANFITEATRO

Física, química, lógica, botânica.
É incerta sua especialidade,
insinuada pelo queixo tímido
e pelo lábio mordido
sob o nariz vago.
Bochechas compactas
cobertas da pele lisa e pálida
que sobe também pelas longas pernas
e se espalha pelo quadril que quase
não segura sua melhor calça.

Ombros de remador que jamais remaram,
as mãos descansam sobre o colo
e revolvem o bloco em que lança
ou finge lançar suas sonolentas impressões.

Falsamente indefeso ignora
o rébus que se desenha em sua nuca,
no contorno do seu talhe crescido
de pajem responsável pelos banhos.

Abandona-se na poltrona entediado,
cercado pelos pares mais caros,
em insuspeito sacrifício
a um fauno de anfiteatro.


São Paulo, novembro de 2009.

J. C. P.

6 de novembro de 2010

Da série "Ensaios para montar" [7]

Primeira versão daquele que promete ser o único "publicável" de 2010...
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A CAIXA

Um maço de cartas cingido
Frouxamente por uma fita,
Pesado das moedas que recolhemos
Na primeira viagem.
E marcadores de páginas,
De páginas arrancadas sem hesitar
Dos melhores anos, dos piores álbuns;
E convites de vernissages e casamentos
Aos quais não fomos e silenciamos
Em omissão prazerosa, pois cúmplice,
Que nos possuía na época longínqua
Em que a resistência ao alarde
Era todo o afeto que nos unia.


J. C. P.
Outubro de 2010

15 de janeiro de 2010

Top 10 das imp(r)udências

Gide blefando em entrevista a Jean Amrouche: "Tenho horror ao escândalo, ao escândalo pelo escândalo... Sempre que pude, procurei evitá-lo, o que só não fiz quando foi absolutamente inevitável".

Sei, sei...

Pensei nisso ao reler esta canção de circunstância, que se perde na minha galeria trash-platônica e que renderia, sem dúvida, uma boa posição num Top 10 de imp(r)udências.



PROGNATA


Ele se sabe mestre da desgraça e
Das frágeis formas de ocultá-la.
Difícil precisar como a presunção
Pueril dependura-se
Em seu queixo projetado.
Do crânio, a proeminente
Gaveta metálica destaca-se
Ofensiva em um bico suplicante.
Reclama para si uma agressividade
Inata de destino moído a patadas.

Experimento a improvável visão
De sua regata atirada em minha cara
(Quando ela jamais saiu de seu torso).

Prognata, pureza suspeita
Sua testa refrata. O véu amigável
Oculta as tatoos, minha cobiça escarificada.

O fauno que imagino ser
Tem entre os dentes sua cabeça que pende
Por uma orelha furada.
Ele sabe, afinal, que sou letal
Feito um coala, cínica pelúcia de Austrália:
Só, eu desfio, um colo é meu exílio.


fevereiro de 2005
J. C. P.

30 de julho de 2009

Da série "Ensaios para montar" [6]

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O JARRO



Este jarro despreza o olhar
Refratado em sua base circular
Mal traçada de um côncavo granulado.
Um jarro em que poucos derramaram a curva límpida
Da água, cujo esmalte gasto como um véu roto
No contorno do bocal – o gargalo levemente disforme –
Denuncia o triunfo do barro.

Poucas nuanças de tabaco e terracota costeiam
O longo do jarro e se coalham no seu bojo.
A saturação da cor dá a medida do seu peso,
Como a imperfeição da forma lhe confere leveza.

Um menino o deixa cair por falta de modos.
A senhora refresca o rosto com a água dele vertida
Enquanto a alça se rompe no ponto de equilíbrio.
Um monge fere ainda mais sua borda
Fazendo trovejar seu cajado.

Ao observador não resta mais do que a especulação
Que junta seus cacos, antes de um esgar premonitório
Que reconstitui o jarro aberto, couro lustroso esticado
Como uma tapeçaria em que quase se pode ler –
Lascas finas de barro e chão, algumas mais espessas,
E arredondadas e pontiagudas – uma inscrição esgarçada
Que se ramifica em fiapos.

Este jarro despreza o olhar
E, mais que fazer jorrar a água,
Ele parece ter sido esculpido com água jorrada
De modo que neste jarro qualquer derramamento
Se faz segundo a economia estrita do desperdício.

J. C. P.
julho de 2009

20 de julho de 2009

Inédito de Tal a Fuga




JOGADOR, ESTETA


Só mais uma no maço
nesta mesa de sargaços
detentora de descartes
arbitrários, nada fáceis

Este ouropel é mais do que eu poderia supor
Fosse um bumerangue sob custódia, um ioiô
seria eternamente descartado e recobrado
carta sensível ao meu dom

Baixa a tiragem desse naipe
O parceiro exige o bate de um leque
legendário, tarefa do renitente
ás de ouros, um pingente.


J. C. P.

1 de julho de 2009

Os analectos de Jean-Lúcio [2]

O Mestre perguntava sempre sem muito ânimo, com a falta de ênfase que lhe era tão impossível quanto própria: de que são feitos os desertores?

*

Pin amava a língua dos nobres, mas a exercitava sem domínio ou paixão. Mêncio denunciava o contrassenso em alta voz: “alguém que pensa ser traído pelo dialeto da sua terra natal jamais forjará um estilo”.

*

“Um homem de princípios nada pode nos dizer sobre a dignidade”, bradava com frequência Kon. No que o Mestre se limitava a retorquir: “o velho Kon não se engana quando busca a dignidade e nada é menos digno do que isso”.

*

Sabendo que naquela tarde encontraria o amado discípulo, Jean-Lúcio estirou o pano cinza e espesso no qual fazia tombar as varetas escuras do Grande Livro e – antes de soltá-las em desordem no tecido impecavelmente alinhado – dirigiu-se a seu círculo em versos lacônicos:

A túnica com que cingiram
Meus ombros é a lição pura
Da compaixão súbita –
Cálida veste cujo perfume
Conduz-me ao Caminho!

*

O jovem Lao, escrivão real que praticava a arte da caligrafia e da gramática como poucos, procurou o Mestre para saber o que seria de sua posição quando a Casa de Tzi deixasse de ser a única escola a oferecer homens doutos ao imperador. Disse Jean-Lúcio: “a arte da escrita nada tem a ver com os sábios métodos de Tzi ou com o Grande Imperador e sobreviverá a ambos”.

* * *

28 de maio de 2009

Analíticas do Poema

Limpando velhas pastas, encontrei este texto de 2003, que tratei de reler e de retocar aqui e ali, por puro falso decoro. No conjunto, o texto é bem irregular, mas ainda continua atual se pensarmos nos problemas práticos que encontramos na análise do poema.



Analíticas do Poema


1. O poema é a ilha íntima, ferida, circunscrita por humores e pele sadia.

2. O poema é um esforço de linguagem (vontade de falar) que, obrigatoriamente, deve ser expresso em língua (meio de falar). Bem-sucedido o poema, mais a linguagem nele ruge e menos legível ele emerge à leitura.

3. Não se deve ler um poema tendo como primeiro horizonte a representação da realidade imediata, como se ele fosse o comentário das coisas que existem, um apêndice à existência material do mundo (M. Rifatterre). O poema é único, fechado em si, ainda que nele habite a força primordial de todos os poemas já escritos (O. Paz).

4. Começar a análise do poema diferenciando seus recursos de expressão e conteúdo (decisão puramente metodológica) ainda é a escolha mais prudente nestes dias cegos.

5. A expressão, ou melhor, a forma da expressão (L. Hjelmslev) do poema é constituída, no plano sonoro, de sons organizados segundo determinados princípios fonológicos e, no plano visual, por sinais gráficos (o alfabeto) investidos de valores fonéticos e semânticos.

6. A forma da expressão é responsável por muitos dos efeitos estéticos do poema. É nela que o poeta pode distribuir determinados fonemas, alternando-os, omitindo-os, reiterando-os segundo seus propósitos expressivos. Aliteração é o nome das recorrências sonoras consonantais. A assonância é o nome das recorrências sonoras vocálicas. Obviamente, há muitas outras figuras de construção que descrevem a forma da expressão da língua, mas reter a existência dessas duas é o suficiente para uma primeira visão do material expressivo do poema.

7. Não bastando o poema poder existir como um gracejo sonoro ou um mantra, ele ainda significa algo! Eis a maravilha da forma do conteúdo no poema.

8. A verificação do sentido literal ou primário ou denotativo das palavras (paradigmas) e frases (sintagmas) é o meio consagrado para principiar a análise do poema. É comum valer-se do dicionário para o estabelecimento desse sentido denotativo, já que o dicionário traz os usos mais comuns do léxico (cuidado: o dicionário registra muitas vezes o sentido das palavras na perspectiva paradigmática, o que, devido ao sentindo encontrar-se na RELAÇÃO (no sintagma), pode ser uma armadilha). A partir desse “grau zero” de significação é que se faz o reconhecimento da metáfora ou sentido conotativo.

9. A estruturação da análise da forma do conteúdo do poema pode ocorrer (entre tantas outras) da seguinte maneira: a) Observação das disjunções (diferenças, transformações) temporais; b) Observação das disjunções espaciais; c) Observação das disjunções actoriais (atores = personagens). Pode-se montar uma análise balizada pela construção das figuras no poema, mas se deve ter em mente que as figuras sempre revelarão, basicamente, sentidos temporais, espaciais e actoriais. É recomendável que o analista procure fazer um quadro de tipos de figuras e, em seguida, passe a organizá-las em contrastes e oposições. Ex: Encontra-se num poema a figura “pátina esmaecida do caminho” e, mais a frente, a figura “verniz radiante da derrocada”. Trata-se provavelmente de elencá-las no rol das figuras espaciais, mas opô-las semanticamente.

10. Um método eficaz na descrição e classificação das figuras do poema é a distinção entre isotopia temática (abstrata, conceitual) e figurativa (concreta, figural). Isotopia é um tipo de predominância, de ideia fixa, é a concentração do sentido através de sua reiteração. Quando a isotopia é temática, por exemplo, encontraremos, em um texto dado, as “joias”, o “vestido”, o “ar de superioridade” como figuras marcadas pela isotopia da /riqueza/ e, dependendo do texto em questão, da /prepotência/, da /arrogância/. Quando a isotopia é figurativa, teremos essa reiteração nas próprias figuras, como em “mar”, “espuma”, “barco”, “vela”, “marinheiro”, etc.

11. Na análise do poema, procure segmentar o texto (Sequência I, II, III, etc.) levando em consideração os critérios expostos no item 9. Tal medida ajudará você a orientar-se e a fazer referência às várias partes do texto, além de demonstrar que você (segmentando) já está analisando o texto. Segmentar é a primeira forma de analisar, é a primeira forma de evidenciar as disjunções (diferenças, transformações) no texto.

12. Quando se faz referência a uma (um lexema) ou mais figuras (um sintagma lexical) do texto, usam-se aspas (ex: “olho”, “olho de gato”). Quando se trata de referenciar temas (grandeza semântica) usam-se barras (ex: /circularidade/, /morte/, /alegria/).

13. Respeitar o texto, procurar restituir o sentido investido pelo enunciador (a inteligência poética que compõe) e empregar o máximo de criatividade e estilo próprios na feitura da análise é o que todo analista deveria buscar.

14. Na impossibilidade de verificar citações (nomes de pessoas, obras, cidades, etc.), é importante registrar a hipótese mais sensata e reconhecer as próprias limitações.

15. Durante a análise, sempre que se tratar da construção do sentido do poema, empregar o termo “enunciador” ao invés do nome do autor do poema. A semiótica entende, por exemplo, que Drummond teve uma existência física, corporal, que Drummond foi “gente”, mas que teve sobretudo (e tem) um existência textual, tão física quanto a outra, que é a existência que a Semiótica analisa. Isso não equivale a matar (mais uma vez) o homem Drummond (até porque sabemos bem que o homem é quem molda a Obra), mas, sim, a respeitar o Drummond de papel, o Drummond que, dominando a arte da linguagem verbal, dentro de um estilo projeta outros tantos e se eterniza pela força do significante e do significado linguísticos.

16. Lembre-se: não é o autor que “quis dizer...”. É o texto que “diz ou parece dizer...”. O que o autor quis dizer é diferente do que ele disse de fato. O poema só é a aparência do que se pretendeu dizer. E, como toda aparência, o poema pode parecer com outros tantos dizeres.

J. C. P.
Fevereiro de 2003